Licor de Conto de Fada

sexta-feira, abril 24, 2009

Haverá pensamento mais perverso?

"De acordo com a ideologia reinante,o que somos, o que temos e o que fazemos depende unicamente de nós. A felicidade humana é uma construção pessoal que exige método e esforço. O que implica, inversamente, que a infelicidade é o resultado da nossa incapacidade para sermos felizes. Haverá pensamento mais perverso?

Não creio. E, no entanto, ele é repetido, dia após dia, numa sociedade que se sente infeliz por não ser feliz, como se a felicidade não fosse também um produto de contingências várias, que escapam ao controle dos homens. O produto, no fundo, de oportunidades que vieram ou não vieram; da ação ou da inação de terceiros; e das mil vidas que poderíamos ter tido."


JOÃO PEREIRA COUTINHO, Folha de São Paulo, 21/04/2009

quarta-feira, abril 08, 2009

Terra Boa da Mulesta!

COISAS QUE SÓ QUEM É PERNAMBUCANO ENTENDE...

Gente alta é galalau;
Botão de som é pitôco;
Se é muito miúdo(muito pequeno) é pixototinho;
Se for resto é cotôco;
Tudo que é bom é massa;
Tudo que é ruim é peba;
Rir dos outros é mangar;
Já, faltar aula é... Gazear;
Quem é franzino (pequeno e magro) é xôxo;
E o medroso se chama frouxo;
Tá com raiva, é invocado;
Ficar cheio de não me toque, frescura é pantim;
Vai sair diz: vou chegar;
"Caba" (homem) sem dinheiro é liso;
A moça nova é boyzinha;
Pernilongo é muriçoca;
Chicote se chama açoite;
Quem entra sem licença emburaca;
Sinal de espanto é: "vôte";
Tá de fogo, tá bicado(bêbado);
Quando tá folgado, tá folote ou afolozado;
Quem tem sorte é cagado;
Pedaço de pedra é xêxo;
Quem não paga é xexêro;
O mesquinho ou sovina é amarrado, muquirana, mão de
vaca,pirangueiro;
Quem dá furo (não cumpre o prometido ou compromisso) é fulero;
Sujeira de olho é remela;
Gente insistente é pegajosa;
Meleca se chama catota;
Catinga de suor é inhaca;
Mancha de pancada é roncha;
Briga pequena é arenga;
Performance ou atitude de palhaço é munganga;
Corrente com pingente é trancilim;
Desarrumado é malamanhado;
"É mesmo" é: "Iapôi";
Borracha de dinheiro é liga;
Correr atrás de alguém é dar uma carrera;
Estouro aqui se chama pipôco;
Confusão é rolo;
Carona é Bigú;
"Cola" pra uma prova é fila;
Dicas pra uma prova é bizu;
Coisa torta, fora do lugar está troncha;
Algo deu errado é "Fudeu a tabaca de Xôla";
E PRA FECHAR: Eita terra ARRETADA!"

Eu aumento essa lista:
Da mulesta- Grau superlativo absoluto analítico.
"Calado feito um coco"- Quando alguém está muito calado, fala que está calado feito um coco. Não tem melhor comparação pra indicar silêncio!
Deixa de teu culete é para de frescura.
Rentimbora! Vem embora.
Oxé: Oxente = o Gente
Av : Ave= Ave maria
Visse = entendeu?

SER PERNAMBUCANO
- Considerar Reginaldo Rossi Rei;
- Acreditar que a Recife é mesmo a "Veneza Brasileira";
- Defender o frevo, mas não fazer um passo sequer;
- Amar as pontes do Recife sem conhecer o nome de uma apenas;
- Preferir botecos a fast-food;
- Gostar de qualquer música que fale de sertão, mangue, etc.;
- Gostar de comer caranguejo;
- Saber o significado das palavras "pirangueiro","pantim" e "mangar"(e todas as outras da lista acima);
- Achar que José Pimentel é a cara do Cristo;
- Adorar bolo-de-rolo e suco de pitanga;
- Ir ao Alto da S้ em Olinda apenas para ver Recife ao longe e comer
tapioca tomando água de coco;
- Saber a delícia que é um bolo de bacia com caldo de cana;
- Correr no Parque da Jaqueira e depois se empanturrar de caldo de cana na
saída;
- Jantar olhando para a lua incrivelmente linda na praia de Boa Viagem;
- Achar que Recife seria melhor se os holandeses tivessem permanecido;
- Admirar Mauricio de Nassau mesmo sabendo pouco sobre ele;
- Conhecer a estória de Biu do Olho Verde e da Perna Cabeluda;
- Frequentar a praia em frente ao Acaiaca;
- Tomar água de coco na praia;
- Ficar sempre dividido entre a beleza de Porto de Galinhas e Itamaracá (ainda prefiro Tamandaré e Carneiros);
- Ter saudade da Livro 7;
- Saber distinguir entre o Maracatu do Baque Solto do Maracatu do Baque
Virado;

Eu aumentaria a lista acrescentando que comer camarão de bacia na praia de Boa Viagem, como tamém amendoim cozido, ostra, abacaxi, e tudo mais o que passar (melhor que rodízio);
Ir no Mercado de São José comprar sandália de couro e o que mais der vontade: rede, camisa de PE, artesanatos...
Achar o hino e a bandeira de PE os mais bonitos do Brasil!

Bem, a lista é grande de coisas que adoro dessa minha amada terra. A medida que for lembrando de mais coisas, vou acrescentado.

Declaração à Pernambuco: Te amo!
(Eita banzo!)

sexta-feira, abril 03, 2009

Ahhh, a felicidade, a tão perseguida felicidade...

Tem gente que consegue escrever o que a gente pensa e não escreve, pelo menos pedaço disso! Ahhh, a felicidade, a tão perseguida felicidade...


"Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz.
Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem.
Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato. E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objetos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade.
Um gato ajuda a entender tudo isso. (...)

A modernidade ofereceu-se aos Homens como projeto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projeto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total. A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? (...) depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o teto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam?"

João Pereira Coutinho, Folha de São paulo, 31/03/2009